Kusen

Ryumonji -A porta do Dragão

Kusen

Um Kusen é um ensinamento oral pronunciado pelo Mestre durante a meditação. Encontrarão mais abaixo alguns kusens do Mestre Yves Shosshin Crettaz sobre diversas temáticas no decorrer de algumas sessões no templo de Seikyuji em Espanha ou no dojo de Lisboa.


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Buda e o Ego

Tettsu zenji é um velho mestre chinês que viveu até ser muito velho. Morreu com a idade de 120 anos. Antes de morrer fez um belo quadro sobre ele, um autoretrato unde caligrafou por baixo este poema :

Cada um nasce com um karma diferente mas nunca duvidei que era buda.

Até este dia vivemos juntos sem conhecer onosso  rosto recíproco.

E hoje, não sei mais qual é um e qual é outro.

Isto lembra-me uma frase do nosso mestre Raphäel Doko : « O verdadeiro espírito da fé, é o ponto de junção entre buda e o ego…

O caminho que separa buda e eu mesmo, é o caminho onde nascem as conceções, as nossas categorias. É ocaminhio de todos os ismos, das filosofias, das construções do nosso espírito, das discussões sem fim…

Quando durante zazen, cada um se torna íntimo consigo próprio, é isso a fé, não-dois, não separação. Nesse instante entre si mesmo e buda, não podemos nem mesmo escorregar a espessura de um cabelo. »

É o espírito da sesshin, é voltar à realidade simples da nossa vida, à realidade plenamente vivida. É isso manifestar o nosso rosto original.

Uma flor que se endireita para a luz é naturalmente o que ela é. Mas o homem, manipulado pelo seu ego, procura sempre outra coissa, volta sempre para o pasado ou mergulha no futuro.

Experienciar o Real

Wang-wei, monge zen, poeta e pintor do sec. VIII

Depois da chuva

Sobre a montanha vazia

Depois da chuva nova

A lua brilha entre os pinheiros

A fonte límpida murmura nas pedras

As montanhas, a chuva, a lua, os pinheiros, a fonte, as pedras, tudo nos convida a despertar, quer dizer, a ver a realidade tal como ela é.

Podemos dizer a mesma coisa do canto dos pássaros, do vento no páteo, da parede à nossa frente, do delicado odor do incenso, tudo nos convida a não dormir mas a despertar.

Praticar o zen, é fazer a experiência direta da realidade, não uma abordagem intelectual da realidade, não uma visão das coisas através das lentes coloridas do nosso egocentrismo, não a realidade medida com a vara egocêntrica.

A realidade tal como ela é aparece quando não temos mais a noção do eu e do meu, quando esquecemos os nossos desejos egoístas, quando deixamos cair os nossos julgamentos de valores, « isto é bem, isto é mal », quando estamos totalmente em unidade com aquilo que fazemos.

Estar totalmente naquilo que fazemos e fazer a experiência direta da realidade tal como ela é. Shunryu Suzuki : « É esquecer este momento e crescer para o seguinte. »

Tal é a prática de unsui, nuvem e água, a prática da grande liberdade dos filhos de Buda, a da água que corre em harmonia com a lua brilhante e as nuvens que se desvanecem seguindo o vento puro. Viver como unsui, não se apegar, não estagnar, não permanecer, fazendo realizar o espírito do despertar e abandonando o seu egoísmo.

É neste sentido que é compreendido – e praticar – As regras do dojo e da vida no templo, neste dia de zazen. As regras mas também os gestos, os sons, os rituais… Estar concentrado nisso, é mergulhar na tranquilidade. Não estar concentrado, é ficar no mundo da agitação, o mundo da intencionalidade, da consciência dualista sempre orientada para um objeto.

Fajong (+ 657) Nieou-t’eou, Sin mingA inscrição no espírito.

Conservemsomente o estado do recém-nascido

…Aprendamsomente a dissolver a intenção

Porque o espírito dissipa-se na ausência da intenção

Festim Real

Daichi : « Se fico sem pensamento (mushin), cada lugar se torna um templo. »

No  Shodoka, Yoka Daishi diz:

Eles têm fome mas não comem o festim real que lhes é oferecido,
Doentes, eles consultam o rei dos médicos mas não se curam.

Todos nós temos fome, todos queremos a verdadeira felicidade mas esta fome nunca é saciada : quando um desejo é satisfeito, um outro aparece e queremos satisfazê-lo de imediato. Uma infinidade de pequenos desejos satisfeitos, provocam uma insatisfação crónica, é dukkha, a imcompletude existencial.

O que é que nos sacia verdadeiramente ? Qual é o festim real que nos é oferecido por Buda ? É o koan da nossa vida ?

O festim real apazigua completamente esta fome.

O que é que fazemos aqui ? Praticamos juntos a via do Buda. No dojo, no refeitório, durante o samu, em todas as atividades da vida quotidiana.

Alegra-te, cultiva a conduta pura para suprimir a origem do sofrimento.

Um sutra conta a história de um rei que sonhou que ele era um pobre miserável que para sobreviver, decidiu ir pedir ajuda ao seu rei. Percorreu então todo o país mas de cada avez que chegava ao lugar em que ele pensava vê-lo, diziam-lhe que tinha partido para longe. Enquanto ele continuava a sua busca do rei que o ia salvar, despertou e tomou consciência que o rei era ele.

Este mundo do sonho que nos faz esquecer a nossa verdadeira natureza, é samsara, o mundo de dukkha.

Dhammapada 1-2 :
O espírito precede as condições.

O espírito guia-as e eles são fabricadas pelo espírito.

Se tu falas ou ages com um espírito puro

A felicidade acompanhar-te-á tão fielmente como a tua sombra.

Impermanência

Kusen da sesshin de Janeiro 2016 em Seikyuji pelo Mestre Yves Shoshin Crettaz

Um mestre escreveu este poema:

Haveis completado os dois terços da vossa vida.

Sem ter feito reluzir a menor parcela da vossa alma,

Insaciáveis, devorais a vossa vida a correr atrás de futilidades

Que posso eu fazer por vós se nem mesmo virais a cabeça quando vos chamo?  

Virar a cabeça quando Buda chama, quando Buda nos convida a seguir a Via da libertação, é passar para a outra margem, de instante fresco em instante fresco.

O Dharma, fielmente transmitido, tem características que se chamam “Os três selos do Dharma”.

Dizemos selos e por vezes, marcas. Um selo é uma marca que garante a validade de um documento. Os selos do Dharma são as características do Dharma, as provas. Todo o ensinamento que não esteja em conforme com elas, não está em conforme com o Dharma do Buda.

1 – Shogyo mujo: todos os fenómenos compostos são impermanentes

2 – Shoho muga: todos os fenómenos compostos são sem substância (anatman)

3 – Nehan jakujo : o nirvana é perfeita tranquilidade

O primeiro selo : todos os fenómenos compostos são impermanentes

Mujo, é a impermanência. Tudo é mujo. As flores, a folha de papel, a mesa, o dojo, o zafu, os régimes políticos, o nosso corpo, as sensações, as formações mentais, a consciência… tudo é impermanente, quer dizer, tudo isso aparece, se manifesta e desaparece.

Tudo se transforma continuamente. A ciência moderna confirma esta transformação constante dos fenómenos psíquicos e físicos. Mas cada um pode fazer a experiência da natureza efémera de todas as coisas. Na nossa cabeça, os pensamentos aparecem, depois desaparecem. Em zazen, este movimento é ainda mais evidente. Podemos tocar com o dedo a impermanência.

Mujo significa que tudo é sem começo e sem fim, sem nascimento nem morte, apenas mudança. Num rio, podemos ver as bolhas formarem-se na água da corrente e depois rebentarem. Quando morremos, a nossa vida não tem um fim. Ela volta ao cosmos, como as bolhas que rebentam sobre o rio.

Podemos experimentar a natureza efémera de todas as coisas na nossa vida quotidiana. Mesmo as rochas e as árvores mudam.

O poeta francês Louis Aragon dizia: «O homem tem o destino da centelha».

Buda ensinou a lei da impermanência para que os homens vejam o mundo como um conjunto de fenómenos e não como uma realidade última dotada de uma natureza permanente e inalterável.

No Shobogenzo, Dogen diz: «Quando alguém vê um barco, se olha a margem, cometerá o erro de acreditar que é a margem que se move, mas se o seu olhar está intimamente pousado na sua embarcação, compreenderá que na realidade é o barco que avança. Do mesmo modo, se tentarmos compreender a natureza dos fenómenos através da nossa percepção confusa, faremos o erro de crer que a nossa própria natureza sonha o estado da impermanência».

Para um praticante da Via, a impermanência é mais do que um conceito. Observar a impermanência dos fenómenos ao longo do nosso dia, é compreender a sua própria natureza.

Mas atenção, não é a impermanência das coisas que nos faz sofrer, mas sim a ilusão de crer que elas são permanentes.

De facto, o budismo ensina a verdade de mujo com o objectivo de transformar o sofrimento em alegria, a miséria em felicidade, o homem vulgar em sábio, o egoísta em bodhisattva.

O pintor Georges Braque dizia «A arte é uma ferida que se torna luz»

Praticar a Via do zen, é fazer o mesmo com a nossa vida.

Respiração

Kusen da Sesshin em Seikyuji, 24-26 Janeiro 2020 pelo Mestre Yves Shoshin Crettaz

Não sigam os vossos pensamentos, não sigam as vossas emoções. Sigam a vossa respiração.

Nunca esqueçam que respirar, é viver. Estar totalmente presente na sua respiração, é estar presente na vida, à vida que corre neste corpo que nos foi emprestado por alguns anos.

Viver é respirar, E viver desperto, é respirar não de maneira adormecida mas de maneira desperta, quer dizer, consciente.

Quando respiram, renovam o ar que está nos pulmões. Na inspiração, o ar desce dentro da grande árvore respiratória pela traqueia, os brônquios, até aos alvéolos onde o oxigénio passa para o sangue e alimenta as células do corpo, para que elas possam fazer o seu trabalho.,

E a expiração liberta do corpo o gás carbónico, expulsando-o dos pulmões.

Sem esta troca gasosa, não há vida.

No nascimento, quando é cortado o cordão umbilical, o recém-nascido grita, fazendo a sua primeira inspiração. E o homem cala-se definitivamente fazendo uma última expiração, aquela que não será seguida por uma nova inspiração.

E se a vida do homem não fosse senão uma imensa respiração fragmentada de uma multitude de pequenas respirações? Um pouco como a rohatsu sesshin que não é formada senão por um zazen fragmentado.

O motor principal desta troca gasosa vital é o diafragma, um músculo em forma de cúpula que separa o tórax (pulmões, coração) e o abdómen (estômago, fígado, pâncreas).

Quando respirais, o diafragma contrai-se e desce, o ventre incha, as costelas afastam-se, a caixa torácica abre-se.

Quando expirais, o diafragma sobe desta caixa torácica, as costelas baixam, o ventre relaxa.

Isto que vos digo não é um curso de anatomia. Digo-vos o caminho da prática da respiração em toda a consciência.

Inspirar assim, é alargar o caminho da vida que nos é partilhada.

Expirar assim, é aprofundar o caminho da Via, da não possessão, do abandono, do desapego libertador.

Praticar assim, é praticar a interdependência e aprofundar a nossa compreensão da vacuidade.

Três Venenos

Kusen da Sesshin do Norte, Peniche 14 de fevereiro 2016 pelo mestre Yves Shoshin Crettaz                           

Os três venenos (sandoku): o desejo, o ódio e a ignorância, são a raiz do sofrimento.

Praticar a Via, é compreender este laço entre sofrimento e as suas causas, e compreender profundamente esse laço, é libertar-se das correntes.

Toda a gente aspira à felicidade, à tranquilidade, mas o homem é assaltado pela sua ignorância e não faz senão construir a sua própria infelicidade. É enganado pelos três tesouros, está armadilhado na rede da ilusão.

O Buda mostra a Via para sair desta armadilha, o caminho que leva do sofrimento à libertação do sofrimento.

Não deixem desenvolver os três venenos, não os reguem com o jacto da vossa ignorância. Não, a avidez não leva à felicidade, não, a cólera e o ódio não levam à felicidade, nem à sua nem à dos outros.

Quando os três venenos não criam separação entre o eu e os outros, entre o corpo e o espírito, entre eu e eu, então recebemos a vida do universo e a nossa vida exprime-se no universo. É a grande valsa cósmica do Dharma.

Fernando Assis Pacheco :

“Há um veneno em mim que me envenena, um rio que não corre”.

Buda convida-nos a uma profunda revolução numa sociedade que promove uma institucionalização dos três venenos :

A avidez é encorajada pela vontade de poder, o poder do dinheiro, o marketing, a publicidade e o consumo excessivo. O ódio é por militarismo, o racismo, a caça do outro diferente. A ignorância é mantida pela política dos medias que “fabricam o consentimento”, segundo as palavras de Noam Chomsky.

A nossa prática na sesshin é fazer como as tartarugas que para se protegerem contra os predadores recolhem na carapaça as suas seis extremidades; as quatro patas, a cabeça e a cauda. Recolham as vossas extremidades que são os cinco sentidos e a consciência.

É dito num sutra que até mesmo os demónios não nos podem destruir se estas seis partes do nosso corpo estão no interior da carapaça.

Quando há a unidade entre o corpo e o espírito, unidade entre o corpo e o seu meio ambiente, quando os três venenos não criam separação, então está bem, isso funciona livremente. Nós recebemos a cada instante a vida de todo o universo, a nossa vida exprime-se por sua vez em todo o universo, está bem. É isso o Dharma.

Está bem, quer dizer que o sofrimento não pode aparecer. O sofrimento provém

do desenvolvimento dos três tesouros. Manter o contacto entre o corpo e o espírito, entre o corpo e o seu movimento, entre todas as existências, é impedir o mal de aparecer. As vistas falsas criam-se a partir da recusa desta realidade.

Viver Sozinho

Kusen no dia de zazen de 20 de Janeiro 2018 pelo Mestre Yves Shoshin Crettaz

Ainda uma outra pergunta para mergulhar no coração do Dharma: “Por que é que este instante não vos satisfaz completamente?”

Falei esta semana do conforto do Dharma que não é de todo o conforto do ego, aquele do desejo satisfeito por alguns instantes. O conforto do Dharma, é o conforto da presença ao instante, àquilo que fazemos, é não se escapar do aqui e agora, é tornar-se íntimo com o espírito vasto.

Dogen tem uma expressão para exprimir isso: anraku no hômon: confortável e agradável.

A partir do espírito vasto onde nos esquecemos de nós próprios, podemos observar a prisão na qual estamos fechados, é a prisão da dialéctica agarrar/rejeitar que é o funcionamento do ego, a prisão do egoísmo, do desejo insaciável.

O desejo é o desejo de qualquer coisa. Ele projecta-nos com força para fora do instante presente. Se o desejamos, o momento presente é esquecido, fechado a cadeado, posto na prisão.

Buda disse: «Se um monge se apega a tudo isso, ele fica acorrentado aos objectos da sua consciência, então ele «vive com outro». É o contrário de «viver sozinho». Aquele que vive só é aquele que rompeu as suas correntes, que se libertou de todos os seus apegos».

Aquele que vive só é livre. Aquele que vive com outro está acorrentado porque vive na distracção, sacudido pelos desejos e pela cólera.

É particularmente evidente na nossa sociedade onde cada um quer exprimir a sua personalidade, mostrar a sua diferença, com a moda, o penteado, o último modelo de telemóvel… mas essa personalidade que exibimos de forma tão ciumenta, tão orgulhosa, não depende senão do olhar que os outros têm sobre nós. É ilusão dizer: «Olhem, olhem como sou livre». Ser livre, é viver só e não dependente do olhar do outro. Ser livre, não é não possuir nada, mas é não ser possuído por nada.

É estabelecer-se aqui e agora, e renunciar à luta por um benefício, é simplesmente apaziguar-se sem correr atrás da satisfação.

Kodo Sawaki gostava muito desta imagem: «Como um ladrão que se introduz numa casa vazia: ele não tem nada para levar, ninguém o persegue, ele não precisa de se escapar, literalmente: não se passa nada. Mesmo que se tenha dado ao trabalho para entrar, não há nada para roubar».


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